1. Introdução
O Muriqui, conhecido
também por mono carvoeiro, é o maior primata Neotropical
e o maior mamífero terrestre exclusivamente brasileiro. Pertence
a uma grande família de Primatas do Novo Mundo ou Neotropicais,
a Atelinae, que inclui também o macaco barrigudo (Lagothrix),
o macaco aranha (Ateles) e o bugio (Alouatta) (Rosenberg, & Strier,
1989).
Quando adulto, o Muriqui pode pesar, aproximadamente, 15 kg e medir
mais de um metro de altura, se suspenso pelos longos braços
(Nishimura, et al., 1988). A sua pelagem é espessa e lanosa
e a tonalidade pode variar de branco-amarelada até café
com leite. Ele tem a face, as palmas das patas dianteiras e traseiras
pretas, como os carvoeiros, pessoas que queimam madeira para produzir
carvão (Strier, 1992).
Apesar de seu tamanho, o Muriqui é um primata ágil,
que se movimenta por braquiação com o auxílio
de uma longa cauda preênsil, tão forte que permite suportar
todo o peso de seu corpo enquanto ele está se alimentando ou
socializando com outros indivíduos (Coimbra-Filho, 1992; Strier,
1992).
A distribuição original dos Muriquis abrangia uma grande
parte da Mata Atlântica do litoral brasileiro cobrindo uma área
quase contínua que partindo do sul do Estado da Bahia, atravessava
o Estado do Espírito Santo, Rio de Janeiro e o leste de Minas
Gerais, bem como parte da região montanhosa do Estado de São
Paulo até o norte do Estado do Paraná (Mittermeier et
al., 1987)
Contudo, como a ocupação do Brasil ocorreu, justamente
através da costa litorânea, a Mata Atlântica que
representava 12% do território nacional com cerca de 1.000.000
de km², foi reduzida a, aproximadamente, 5% do seu tamanho original
(Mittermeier et al., 1987). Dessa maneira, Muriquis sendo endêmicos
da Mata Atlântica, sofreram as conseqüências da pressão
antrópica que esse bioma foi vitima desde a época do
descobrimento (Strier,1989; Pinto, et al., 1993; Chiarello & Galetti,
1994).
Quando Aguirre estudou a situação e a distribuição
geográfica do Muriqui há cerca de 30 anos, na sua passagem
pelo Estado do Rio de Janeiro verificou que o mono havia desaparecido
em muitas áreas e ainda subsistia em outras, estimando sua
população em apenas 770 indivíduos. Desde então,
o que se tem observado durante estes anos é uma contínua
destruição e aumento da pressão antrópica
sobre os vários tipos de biota encontrados neste Estado. Um
relatório de 1998 da organização não governamental
brasileira – a SOS Mata Atlântica - sobre as taxas de
desmatamento na Mata Atlântica, constatou que o Estado do Rio
de Janeiro foi o estado que mais desmatou nos últimos cinco
anos. Outro fator que colaborou com o desaparecimento do mono na região
serrana entre Petrópolis, Teresópolis, Magé e
Guapimirim foi a pressão de caça, confirmada pela observação
de muitos acampamentos de caçadores, inclusive com armas, nesta
região. Existem também relatos de antigos caçadores
que afirmaram terem abatido vários exemplares (Garcia e Moratelli,
1999). Diante desse quadro podemos concluir que o risco do Muriqui
vir a desaparecer do Estado do Rio de Janeiro aumentou bastante.
À medida que a população humana cresce, há
uma diminuição dos habitats dos animais selvagens e
uma conseqüente diminuição do número desses
animais. Confinados nas áreas de floresta remanescentes, muitas
delas protegidas da destruição por leis, estes animais
se tornam muito mais vulneráveis a caçadores, que contribuem
significativamente para o desaparecimento ou redução
das populações das espécies, muitas delas já
extintas de áreas onde antes eram abundantes. Conhecendo-se
o perfil das pessoas que praticam esta atividade, ilegal na maior
parte do país, bem como dos animais mais caçados, poderemos
entender melhor a origem do problema e buscar soluções
mais adequadas para solucioná-lo e recuperar áreas atingidas.
Além da perda do habitat e da caça, outros fatores poderão
estar afetando as populações remanescentes do Muriqui
podendo assim torna-los ainda mais vulneráveis à extinção.
Segundo Strier (2000a), os resultados das análises sobre a
viabilidade das populações de Muriqui, predisseram que
existem probabilidades de extinção das populações
que vivem em baixas densidades em áreas grandes de florestas
protegidas, pois esta baixa densidade pode ser o resultado:
- da razão sexual dos infantes desviada para o sexo masculino,
conseqüentemente, as taxas de crescimento se tornam mais lentas;
- dos encontros infreqüentes com outros grupos, que limitam as
oportunidades para a dispersão, assim como escolha de companheiros
para o acasalamento, aumentando assim a endogamia;
- e da homogeneidade do habitat que pode estar restringindo a diversidade
da dieta, fazendo com que estes Muriquis fiquem mais vulneráveis
a flutuações anuais na disponibilidade de recursos de
frutos chaves.
No entanto, a avaliação destas predições
terríveis sobre a viabilidade das populações
dos monos que vivem em densidades baixas em áreas contínuas,
só poderá ser realizada se dados de outras populações
forem coletados e, assim, comparados (Strier, 2000a).
Atualmente, a espécie está restrita a uma pequena fração
da sua população original e a maior parte consiste em
grupos com poucos indivíduos em áreas isoladas, que
estão sujeitos a extinções locais (Pinto, et
al. 1993). Dessa forma, pesquisas com a espécie são
de extrema importância para a conservação da mesma
e seu hábitat.
2.
Justificativa
O
Muriqui é considerado uma das espécies de primatas neotropicais
mais ameaçadas de extinção e encontra-se citado
no Anexo II do CITES (Convention of International Threatened and Endangered
Species) e no Livro Vermelho da IUCN (IUCN Red Data Book - 1996) na
categoria de ameaçado ou “ENDANGERED”, restando aproximadamente
1200 indivíduos na natureza (Conservation International - 2000).
Desta estimativa, apenas uma população com aproximadamente
120 indivíduos, ou seja, 10% da população total
foi efetivamente estudada.
Considerando este fato, a comunidade científica que se dedica
ao estudo dos Muriquis constatou a necessidade de mais trabalhos com
a espécie em diferentes áreas visando o maior conhecimento
a respeito da biologia da mesma. A partir destes estudos é que
será possível definir metas para o manejo e conservação
da espécie.
Além disso, o seu hábitat no Parque Nacional da Serra
dos Orgãos, é considerado como uma das áreas prioritárias
e de extrema importância para a preservação da Mata
Atlântica (Conservation International do Brasil et al., 2000).
Com este trabalho visamos à descrição e compreensão
da ecologia e do comportamento para a conservação de toda
esta porção de Mata Atlântica, utilizando a espécie
como bandeira ou símbolo para a região da Serrana do Estado
do Rio de Janeiro. Desta forma estaremos trabalhando de maneira a complementar
outras pesquisas (censo básico) efetuadas no Parque Nacional
da Serra dos Órgãos e que tiveram como resultado a localização
de 4 (quatro ) grupos de Muriquis, em número aproximado de 60
indivíduos, para a formação de uma base de dados
que permita traçar opções de manejo conservacionista
em bases científicas.
3.
Objetivo
Estudo da ecologia e comportamento do Muriqui em áreas do Parque
Nacional da Serra dos Órgãos e envolvimento de comunidades
estratégicas no processo de Conservação do Muriqui
e Preservação da Mata Atlântica.
Ações
biológicas:
· Obtenção de dados sobre comportamento e ecologia
do Muriqui;
· Colaborar com a formação de recursos humanos
para a área de manejo e conservação de fauna ;
· Gerar informações sobre a espécie para
subsidiar um plano de manejo e conservação da espécie
e seu hábitat na região.
Ações Sociais:
· Minimizar os efeitos da caça sobre a fauna
· Desenvolver nas comunidades do entorno uma economia solidária
com base na preservação ambiental
· Implantar programas de educação ambiental em
comunidades do entorno das Unidades de Conservação onde
as populações de Muriqui estão muito ameaçadas
pela pressão antrópica
· Identificar o perfil dos praticantes da caça (classe
social, profissão, motivação, conhecimento dos
riscos etc.)
· Divulgar, de todas as formas, em todas as mídias, a
importância do Projeto e da Conservação do Muriqui
e de seu Habitat.
4.
Área de Estudo
A
área de estudo está localizada no Parque Nacional da Serra
dos Órgãos, com uma área de 10.527 ha e 87 Km de
perímetro. Está localizada na região sudeste do
Brasil, estado do Rio de Janeiro, nos municípios de Teresópolis,
Petrópolis, Magé e Guapimirim.
O Parque possui uma Floresta Tropical Pluvial Atlântica rica em
palmeiras, cipós, epífitas, e árvores de elevado
tamanho. As formas florestais, apesar de apresentarem aparência
primitiva são na verdade matas secundárias bem evoluídas
com respeito à sucessão florestal. Entretanto alguns trechos
do Parque apresentam cobertura original.
O Parque está localizado na faixa de dobramento remobilizado
formado por escarpas e reversos da Serra do Mar; também denominada
"frente dissecada do bloco falhado", sendo que esse bloco
falhado se apresenta dividido em dois grupos aparentemente distintos.
O Parque está na província biogeográfica da Serra
do Mar e no domínio morfo-climático Tropical Atlântico.
5.
Metodologia das ações biológicas
Acompanhamento
e captura dos indivíduos
Um
grupo de Muriquis será escolhido para ser acompanhado durante
um período para que os indivíduos se acostumem à
presença dos pesquisadores. Após esta fase, inicia-se
a campanha de captura de, pelo menos, um indivíduo do grupo para
a colocação do rádio-transmissor no pescoço.
Tal procedimento vem sendo testado com animal em cativeiro no Centro
de Primatologia do Rio de Janeiro. Em junho de 2002 um animal foi capturado
e aparelhado com rádio colar. O mesmo está sendo acompanhado
para observação de possíveis distúrbios
comportamentais ou físicos não tendo até o momento
sido observada nenhum sinal de rejeição ao rádio.
A captura no Parque será realizada com o acompanhamento de um
veterinário seguindo todos os procedimentos necessários
para que não ocorra qualquer risco ao animal. O animal será
anestesiado com arma anestésica apropriada utilizada por técnico
com longa experiência nesse tipo de captura. Com o animal sedado,
serão coletados os dados de pesagem e tomadas de medidas corporais.
Para o acompanhamento dos animais, será utilizada a técnica
de rádio-telemetria, que consiste em localizar os animais com
uma antena direcional que informa local e proximidade, do animal através
do sinal emitido pelo rádio-transmissor e captado pelo rádio-receptor
acoplado à antena.
Coleta
de dados ecológicos e comportamentais
Após
a captura e habituação do grupo, iniciaremos a coleta
dos dados ecológicos e comportamentais durante os meses subseqüentes
pelo método “Ad libitum” onde o grupo todo é
observado e as atividades comportamentais de cada indivíduo são
anotadas separadamente. Os dados a serem coletadas seguirão um
protocolo, utilizando como base, os trabalhos realizados com a espécie
(Strier, 1991). Dentre as informações a serem coletadas,
podemos citar:
Uso
do tempo (orçamento temporal)
Consiste
em descrever e quantificar as atividades descritas no protocolo de comportamentos
que ocorrem ao longo de um período de tempo.
Uso
do espaço e área de uso
Utilizaremos
os pontos de coordenadas geográficas registrados por um GPS (Global
Position System) para marcar a localização do grupo ao
longo do dia. Através desses dados, estimaremos a área
de uso, movimentação e uso do espaço pelo grupo
estudado e os pontos de coordenadas geográficas serão
plotados num mapa da área geo-referenciada
Estudo
da ecologia alimentar
Com
esse estudo será possível descrever os tipos de recursos
alimentares e a sazonalidade na dieta da espécie. Essa informação
é fundamental para a caracterização do habitat
onde os Muriquis encontram os recursos de sua sobrevivência e
também quais os itens mais importantes de sua dieta.
6.
Educação Ambiental
Dentro
dos objetivos do Programa, os projetos desenvolvidos devem considerar
que o componente humano é muito importante para a conservação
efetiva das áreas onde são realizados os trabalhos, a
participação da comunidade é determinante para
que isso aconteça.
Dessa forma, a educação ambiental serve como instrumento
para conseguirmos apoio da comunidade local quanto à conservação
do Muriqui e da Mata Atlântica na região. As atividades
educativas e ecológicas deverão ser desenvolvidas em parceria
com outros grupos que atuam na região. Desta maneira estaremos
passando informações sobre a espécie, sua importância
e a necessidade de conservar a natureza.
Equipe composta por pessoas qualificadas irá percorrer várias
localidades, ficando responsável pelo contato com a população
local, a fim de colher dados sobre as ameaças que o mono carvoeiro
possa estar sofrendo, bem como identificar o perfil de possíveis
caçadores locais.
Visitas às comunidades do entorno do Parque para coleta de informações,
levantamento, entrevistas com pessoas que conhecem bem a comunidade,
ou grupos que trabalhem nela, levantamento bibliográfico sobre
as comunidades estudadas, coleta de dados secundários nas fontes
oficiais, visita às lideranças formais identificadas,
como presidentes de associações comunitárias, mentores
religiosos - padres, pastores, pais de santos, clube de mães
etc., visita e reunião com as OGs e ONGs que trabalham na área
são consideradas atividades preparatórias para as reuniões
com a equipe para apresentação do PROGRAMA Muriqui e definição
das ações que beneficiem esta comunidade, facilitando
a disseminação do Programa. Através desse conhecimento,
estabelecer parcerias com as comunidades para desenvolvimento de projetos
coletivos visando a melhoria de renda a partir da conservação
do Muriqui. Se existir, na área, práticas de aprisionamento
desses animais para tráfico ou caça investir no trabalho
de educação ambiental para reverter ou minimizar o quadro.
O mono carvoeiro, no seu habitat, deverá representar para essas
populações a redenção em termos de cidadania,
de melhoria de qualidade de vida, e de aumento de renda.
As comunidades a serem trabalhadas neste projeto serão co-partícipes
do programa e deverão se sentir responsáveis solidariamente,
com toda a população, pela proteção ao Muriqui.
Todo o trabalho de comunidade será acompanhado por equipes de
arte e educação com material de apoio ilustrativo e agradável,
e que seja capaz de criar forte empatia com o Muriqui.
Daremos continuidade aos trabalhos iniciados nas comunidades trabalhadas
na Etapa I do Programa Muriqui em Serra dos Órgãos, realizado
através do Convênio IBAMA/TEREVIVA 45/01, além de
introduzir o Programa nas comunidades de Caxambu (Petrópolis)
e Santo Aleixo (Magé), ampliando com isto a disseminação
dos ideais do Projeto.
7.
INFRA ESTRUTURA/EQUIPAMENTOS DISPONÍVEIS
7.1.
INFRAESTRUTURA FÍSICA
O
Parque Nacional da Serra dos Órgãos já disponibilizou
espaço com vistas ao apoio institucional ao Programa de Conservação
do Muriqui.
Neste espaço haverá uma exposição permanente
de imagens e informações sobre o Muriqui, bem como área
destinada aos trabalhos de base dos pesquisadores e demais profissionais
de apoio.
8. Recursos Humanos
1
Coordenador Geral do Projeto
1 Coordenador Técnico para área Biológica
Coordenadores de Campo
Guias
Técnicos Pesquisadores - área biológica
Ajudantes
1 Coordenador técnico para a área de pesquisa e educação
ambiental
Técnicos Pesquisadores – área social
Consultores de apoio
Instrutores de cursos
Equipe arte educação
9. FORMA DE AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS
A
avaliação dos resultados poderá ser efetuada com
base na divulgação dos mesmos, através de: Workshop,
relatórios, reuniões científicas, artigos para
publicação em periódicos especializados ou imprensa.
No que concerne ao trabalho com as comunidades, os mecanismos de avaliação,
construídos durante o trabalho, serão realizados pela
equipe técnica e comunidade conjuntamente. A análise se
dará em reuniões com a comunidade, para que se exerça
a devolução sistemática dos conhecimentos adquiridos,
numa linguagem acessível, respeitando o nível de desenvolvimento
educacional dos grupos.
10. CRONOGRAMA DE EXECUÇÃO
–
Atividades Biológicas
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