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O
POVO MANSO DA FLORESTA |
O
macaco Muriqui ( Brachyteles arachnoides ), que só é
encontrado na Mata Atlântica, é o maior primata das Américas.
Infelizmente, embora reconhecido pela UNESCO como identificador
de qualidade ambiental, que o utiliza como símbolo de Reserva
da Biosfera da Mata Atlântica, o Muriqui está entre as 35 espécies
mais criticamente ameaçadas da Terra. |
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| CLASSIFICAÇÃO
ZOOLÓGICA |
Os
Muriquis pertencem à família Atelidae da ordem dos Primatas
e atualmente são divididos em duas espécies Brachyteles arachnoides
e Brachyteles hypoxanthus (Coimbra-Filho et al. 1993;
Rylands et al. 1995). VOLTAR |
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| DISTRIBUIÇÃO
E DENSIDADE POPULACIONAL ORIGINAL E ATUAL |
Originalmente
o Muriqui ocorria em uma boa parcela da Região Leste do Brasil
(sul da Bahia, parte do Espírito Santo, Rio de Janeiro e parte
do Estado de Minas Gerais), e parte da Região Sul (São Paulo
e norte do Paraná) em serras de altitude variável de 600m a
1800m. Estima-se que a população do Muriqui foi reduzida de
400.000 indivíduos em 1500 para 3000 em 1971 (Aguirre, 1971).
Segundo informações mais recentes sobre registros de ocorrência
e estimativas populacionais do Muriqui verificou-se que a população
atual encontra-se em torno de 1.158 indivíduos, distribuídos
entre apenas 19 localidades no Espírito Santo, Minas Gerais
e São Paulo (Strier & Fonseca, 1998). Isto representa uma redução
populacional de 61% nos últimos 27 anos. Os Muriquis do norte
(Brachyteles hypoxanthus) são encontrados desde o noroeste
do Rio de Janeiro (Parque Nacional de Itatiaia ou Serra da Mantiqueira)
até o sul da Bahia. E os Muriquis do sul são encontrados desde
o sul do Rio de Janeiro até o norte do Paraná. Não existe registro
de qual espécie pode existir na região central do Rio de Janeiro.VOLTAR |
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| HABITAT |
Espécie
endêmica da Mata Atlântica, o Muriqui vive tanto em matas primárias
como em matas secundárias ombrófilas (úmidas e perenes) densas
das regiões costeiras do Espírito Santo ou as semidecíduas (parte
das folhas caem no outono/inverno) do interior de Minas Gerais
e São Paulo. São encontrados preferencialmente em altitudes
entre 600 a 1.800 metros e no extrato mais alto da mata. Em
áreas alteradas os Muriquis são vistos explorarem todos os extratos
da mata, desde o chão até as copas superiores.VOLTAR |
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| CARACTERÍSTICAS
FÍSICAS DAS ESPÉCIES |
Todas
as adaptações morfológicas dos Muriquis estão voltadas para
seu modo de vida arborícola. Como o Muriqui é o maior primata
das Américas, esta classificação se baseia no tamanho corporal
e também na relação do tamanho do cérebro com o tamanho corporal.
Tem um peso corporal médio de 15 kg (macho adulto) e 12 kg (fêmea
adulta), pelagem espessa de coloração amarelada, cauda longa
prênsil, com terço final desnudo, servindo de superfície táctil
e prensora. Existem, no entanto, diferenças morfológicas e genéticas
observadas nas populações dos Muriquis do norte e do sul. As
populações do norte, B. hypoxanthus, possuem faces e
genitália manchadas de rosa e branco (despigmentadas) e polegar
vestigial, enquanto que as populações do sul, B. arachnoides,
a coloração facial e genital é inteiramente preta e não possuem
qualquer vestígio do polegar (Lemos de Sá & Glander, 1993).VOLTAR |
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| LOCOMOÇÃO |
O
modo principal de locomoção dos Muriquis é através da braqueação,
realizada através dos braços e mãos alongados. O polegar é vestigial
ou ausente, e a mão é utilizada como gancho, em desempenhos
de manipulação, diferente de outros macacos arborícolas, que
usam tanto os braços como as pernas para caminharem ou correrem
entre os galhos, numa posição quadrúpede.VOLTAR |
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| ALIMENTAÇÃO |
Os
Muriquis são animais herbívoros ou seja, se alimentam de uma
grande diversidade de itens vegetais: frutos, folhas (maduras
e novas), flores de árvores, lianas e epífitas, de acordo com
sua disponibilidade sazonal. Em muitas áreas onde eles tem sido
estudados foi observado que são capazes de comerem uma quantidade
substancial de folhas, frutos e flores, assim como itens tais
como bark e bambu. É um animal que mescla características próprias
de frugívoros e de folívoros. A locomoção suspensória, que faz
parte de uma estratégia de busca de alimentos dispersos (frutos)
é um caracter associado à frugivoria (Strier, 1986). Durante
a alimentação, o Muriqui demonstra seletividade e um alto grau
de manipulação do alimento. As atividades e posturas de forrageio
estão ajustadas ao contexto em que este ocorre, em galhos, no
alto das árvores, e à natureza do item alimentar. B. arachnoides
utiliza de um a três apoios , concomitantemente com o uso das
mãos para coleta e condução do alimento até a boca. Pode também
abocanhar diretamente o alimento e ingeri-lo, mantendo-se então
apoiado em até cinco pontos. As diferentes características físicas
dos alimentos, forma, textura, rugosidade e densidade , bem
como o grau de maturidade, são fatores que determinam distintos
graus de complexidade manipulatória e podem afetar o uso diferencial
da mão esquerda e da mão direita.VOLTAR |
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| COMPORTAMENTO
SOCIAL |
Os
Muriquis vivem em grupos grandes de vários machos e fêmeas,
podendo formar grupos com mais de 50 indivíduos, existindo aparentemente
grande variabilidade quanto à estrutura social e espaçamento
intragrupal nas diferentes populações. Acredita-se que entre
os Muriquis exista uma organização social bastante fluida, onde
machos e fêmeas apresentam sobreposição de áreas de uso, o que
torna difícil a caracterização dos grupos e subgrupos. Alguns
estudos mostraram que uma porcentagem pequena do tempo da atividade
diurna é gasto com interações sociais. Apesar disto, o comportamento
social, especialmente os abraços, chamam a atenção pela sua
intensidade. Freqüentemente ocorrem quando são observados encontros
entre Muriquis, ou quando estes encontram animais de outras
espécies. Também ocorrem durante o encontro de tropas ou como
uma forma de cumprimento ritualizado entre indivíduos que aparentemente
se reconhecem, porém encontravam-se separados por algum tempo,
reassegurando a mútua solidariedade. Por sua freqüência, parecem
mostrar que acontecem para que os indivíduos reatem suas relações
fraternais. Apesar do pouco tempo dedicado a interações sociais,
Muriquis adultos, ao contrário de outras espécies de primatas
que vivem em grupos sociais compostos por indivíduos de ambos
os sexos, muito raramente se engajam em ações agressivas, sendo
considerado um extremo entre os primatas por sua baixa agressividade.
O Muriqui apresenta grande tolerância entre indivíduos, e freqüentemente
forrageiam, se locomovem e descansam em proximidade, sem que
sejam observados indícios de competição direta. Isto é particularmente
interessante entre os machos adultos do mesmo grupo, que apesar
de permanecerem próximos uns aos outros não se engajam em competições
diretas, inclusive por fêmeas aptas à reprodução. Como na maioria
da sociedade dos primatas, os machos dos Muriquis permanecem
a vida toda no seu grupo familiar, enquanto que as fêmeas dispersam
para outros grupos quando ainda jovens (5-7 anos de idade).VOLTAR |
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| REPRODUÇÃO |
O
sistema reprodutivo dos Muriquis pode ser caracterizado como
promíscuo, dentro da conceituação humana. Fêmeas adultas no
estro são receptivas a todos os machos adultos do grupo, podendo
copular com vários machos num curto espaço de tempo sem que
haja monopólio ou tentativas de interrupção. Durante a cópula
ela emite uma vocalização e apresenta uma expressão facial características.
Esse comportamento os diferenciam dos primatas do velho mundo,
mostrando uma estratégia comportamental particular, com um baixo
índice de agressividade e um comportamento sexual diferenciado
onde uma fêmea pode ser fertilizada por vários machos. Os machos
atingem sua maturidade sexual aos 6 anos de idade, e as fêmeas
em média aos 11 anos de idade. É conhecido também, que a gestação
das fêmeas dos Muriquis dura em média 230 dias, nascendo apenas
um filhote a cada 3 anos.VOLTAR |
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| SITUAÇÃO
ATUAL DAS POPULAÇÕES DOS MURIQUIS |
Nos
últimos anos tem sido registrada uma diminuição progressiva
dos habitats em que vivem os Muriquis o que tem feito com que
sua população tenha diminuído a níveis críticos. As ameaças
que afetam a sobrevivência dos Muriquis são diferentes entre
áreas protegidas (Unidades de Conservação) e privadas. As Unidades
de Conservação de florestas grandes são menos vulneráveis à
perda de habitat do que as florestas pequenas de propriedade
particular onde ainda restam alguns Muriquis. Contrariamente,
as UCs são mais vulneráveis à caça ilegal.VOLTAR |
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| CONSERVAÇÃO |
Alguns
esforços tem sido feitos para evitar a extinção da espécie.
Populações foram descobertas em áreas de propriedades privadas,
e esforços foram feitos na tentativa de transformar essas áreas
em reservas, implementando estudos com as populações remanescentes.
Esses esforços tiveram um sucesso relativo: algumas áreas foram
adquiridas e transformadas em estação biológica como a Fazenda
Montes Claros a Mata do Sossego em Minas Gerais ambos administrados
pela fundação Biodiversitas. Entretanto, estas área ainda não
se encontram totalmente garantidas quanto à preservação, por
serem ainda propriedades privadas, sujeitas ao destino que seus
proprietários venham a lhes dar. Torna-se necessário e urgente
que se façam novos levantamentos para localizar e proteger outras
populações. Medidas que viabilizem a manutenção e regeneração
dos remanescentes podem garantir a preservação de várias espécies
que toleram um ambiente em processo de sucessão ecológica, incluindo
o Muriqui. Estudos genéticos devem ser conduzidos com populações
isoladas para determinar as possíveis estratégias para minimizar
os riscos de depressão por consangüinidade e perda da variabilidade
genética. Deve-se também criar um número de animais em cativeiro
para assegurar uma reserva genética da espécie, o que será de
grande valia para assegurar a variabilidade genética em populações
isoladas. Estudos devem ser realizados para criar metodologia
para programas de translocação e reintrodução.VOLTAR |
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| O
PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO DO MURIQUI |
tem
o objetivo de retirar de maneira definitiva e sustentável os
Muriquis das listas, nacional e internacional, de animais em
risco de extinção. Iniciando através do Convênio IBAMA/TEREVIVA,
nesta primeira etapa o projeto irá localizar e dimensionar as
populações do primata na região da Serra dos Órgãos. Numa segunda
etapa, será feito um estudo genético para identificação da espécie
remanescente nesta área, identificando também seus hábitos atuais
através de acompanhamento dos grupos encontrados e finalmente,
em função dos resultados destas etapas anteriores, será avaliada
a necessidade de translocação ou de repovoamento, de forma a
garantir reintegração dos Muriquis a seu habitat original. Paralelamente
ao estudo biológico, o Programa desenvolve, e irá ampliar ainda
mais, um Projeto de Educação Ambiental que visa também aumentar
as oportunidades de trabalho e renda para todas as comunidades
pertencentes ao entorno das Unidades de Conservação envolvidas.
Procedimentos idênticos terão lugar em todas as regiões do Estado
em que seja razoável imaginar a presença ou onde existam relatos
de avistamentos. Paralelamente o Programa manterá contato com
todos aqueles que já envidam esforços semelhantes em suas regiões,
visando formar parcerias que permitam estender o Programa a
toda a região onde originalmente existiam os Muriquis. Nesta
etapa, o Programa conta com a coordenação biológica da Prof.
Vânia Garcia, com a Supervisão do Centro de Primatologia do
IBAMA e a parceria do Centro de Primatologia do Estado do Rio
de Janeiro. É um Projeto do Parque Nacional da Serra dos Órgãos,
com realização da TEREVIVA.VOLTAR |
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| PRESENÇA
DO MURIQUI NO PARNASO |
Desde
Janeiro de 2002 esforços tem sido feitos para localizar os grupos
de Muriqui no PARNASO. Em duas expedições os Muriquis foram
avistados dentro do Parque. Ao todo, foram avistados 17 animais
(7 indivíduos num grupo e 10 em outro). Os grupos estão compostos
por fêmeas e machos adultos e alguns jovens foram observados
também. Estão sendo coletadas informações sobre as características
da vegetação na qual os Muriquis são encontrados, bem como das
plantas das quais estão se alimentando. Fezes de alguns indivíduos
também estão sendo coletadas a fim de serem estudadas as características
genéticas da população do Muriqui no parque e também para serem
feitas análises parasitológicas. Sementes encontradas nestas
fezes serão colocadas para germinar, para que no futuro possam
ser plantadas em áreas que precisem ser recuperadas.VOLTAR |
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